Um turbilhão de ideias!

O mundo

Paixão pela Geografia.

Mapa múndi antigo

Mapa do Mundo de I. Evans - 1799.

Globos terrestres

Decorativos e lindos.

Geografia física

Estudar o físico para entender o humano.

Geopolítica

A arte de entender o mundo.

"Há poucas flores na Ilha das Flores"

Na minha tentativa de ajudar no desenvolvimento intelectual dos meus alunos, pedi a eles que assistissem ao documentário "Ilha das Flores", de Jorge Furtado (1989) e escrevessem uma redação com o tema "Ironia", relacionando-os. Abaixo está transcrita uma dessas redações (o título é o original da autora).

O filme Ilha das Flores é um documentário que conta de um modo bem divertido, irônico e até às vezes medonho, a mecânica da sociedade de consumo. Como se gera dinheiro e riquezas entre as pessoas e como isso pode causar um grande impacto para a sociedade, atrapalhando e dificultando a vida das classes menos favorecidas.
Muitos dos tons usados pelo filme se contradizem com as imagens, gerando uma certa ironia e desprezo e uma quebra de expectativa de quem estiver assistindo-o. Ele pode ser considerado um filme engraçado e sem sentido, mas o diretor usa esse modo de expô-lo para que no final haja um certo choque no telespectador pelo fato dele soltar toda a horrível realidade em que nós vivemos, de uma vez só.
A história toda gira em torno do tomate, colhido nas plantações do senhor Suzuki, que tem relação com diversos personagens. Tanto ele sendo colhido na plantação quanto estragado e indo para o lixo, vai compondo um refrão repetido, que é o mais usado pelo filme.
Uma das primeiras ironias que aparece de cara no filme é a frase "Deus não existe". Eles querem expressar com essa frase o exemplo de que se existisse Deus no mundo, nada do que é abordado no filme como a fome e a pobreza existiria.
Outro exemplo de ironia evidente no filme é quando se fala que o ser humano possui um telecéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor que permite realizar melhorias no planeta como plantar tomates, enquanto a imagem mostrada é a da explosão de uma bomba atômica.
Um outro exemplo abordado é quando o filme mostra a alimentação de porcos e pessoas de Porto Alegre com os restos jogados no lixo por outras pessoas. Eles tiram o que é "bom" para a alimentação dos porcos, e aquilo que foi considerado impróprio para os porcos é dado para a alimentação de mulheres e crianças, pelo fato de eles não terem dinheiro e nem dono.
Literalmente é disso que o filme trata: da inversão de papéis a ponto de seres humanos serem tratados como animais e ficarem abaixo dos porcos na hora da escolha de alimentos e da grande desigualdade que existe no mundo, ocasionando na fome e morte de milhares de pessoas que por falta de dinheiro e recursos não podem "participar" da sociedade em que nós, seres humanos, vivemos.

Cláudia A. Euquime, autora do texto, é aluna de 3º colegial do Colégio João Paulo I. Escreveu essa redação por solicitação do seu (chato) professor de Geografia, ou seja, eu. Segunda vez em um ano que consigo publicar textos de alunos por aqui. Valeu, Claudinha!!!
Share:

Recordes e mais recordes!

Parabéns, São Paulo!!!
Que as suas vias eram constantemente lembradas por serem as mais congestionadas do Brasil todos já sabiam. Mas agora algo mudou. Estamos batendo todos os recordes possíveis em congestionamentos, dia após dia. Hoje, 13/03/2007, um novo recorde: 222 km de lentidão às 19:oo horas na cidade. Não é a toa que estamos batendo esses números, já era até esperado. Uma combinação de fatores fez com que isso fosse esperado e até temido. Novidade só para os mais desavisados. Vamos aos fatos:
Fato 1: O asfalto das grandes vias da cidade de São Paulo seria cômico se não fosse trágico. Com a indústria do buraco e do remendo por aí comendo o dinheiro público para fazer serviço porco enquanto paga propina para fiscais corruptos vai ficar difícil melhorar a trafegabilidade das vias, o que aumentaria a velocidade média do trânsito;
Fato 2: O despreparo das pessoas que dirigem em São Paulo é resultado de décadas de vendas de carteiras de habilitação para pessoas que não teriam capacidade de dirigir um patinete, quanto mais um automóvel. Vale lembrar que acidente = trânsito parado;
Fato 3: A indústria automobilística bate recordes de produção ano após ano, aumentando a sua capacidade de atender às demandas dos consumidores, que já estão de saco cheio de pegar ônibus lotado, vans que desrespeitam até mesmo as leis de uso de aparelhos sonoros e parecem discotecas ambulantes, de serem tratados pior do que gado em caminhão numa estrada de terra e ainda pagarem muito caro para isso;
Fato 4: A estabilidade econômica proporcionou aos brasileiros algo desconhecido, o empréstimo a longo prazo. Com esse alongamento, muitas pessoas puderam ter acesso ao tão sonhado carro próprio, para deixar de vez a peregrinação de horas e horas de maus tratos no transporte coletivo. Mesmo os mais eficientes, como o Metrô, tem problemas.
Fato 5: A total incompetência de governantes que se sucederam e que sempre pensaram apenas em se perpetuar no poder, usando obras públicas como forma de obter o resgate exigido pelo fato de terem sequestrado os eleitores de um determinado lugar. Obras públicas, como o tranporte público de qualidade, são para as eleições e só para isso. Não são feitas pensando na população, mas nos eleitores. Na cabeça de bagre dos políticos são "coisas" diferentes.
Era absolutamente previsível que uma hora a cidade cobrasse por tantos erros e desmandos. A falta de organização nas cidades e a vontade dos políticos de se tornarem o próximo "César Augusto" da política brasileira fazem com que, por exemplo, o trânsito de São Paulo se torne cada vez mais insuportável, até que pare de vez. E se continuar assim, vai parar mesmo! Aguardem, caros leitores: novos recordes estão por vir.
Share:

Conflito ideológico.

Já faz muito tempo que o mundo assiste diariamente ao mesmo show de horrores: bombas caem em Israel, bombas caem em territórios palestinos. Civis, militares e terroristas morrem dos dois lados. E o dito mundo ocidental civilizado não está nem aí para o que está acontecendo.
No entanto, de tempos em tempos algo diferente acontece, como no início do mês de fevereiro desse ano. O vice-primeiro ministro israelense, Matan Vilnai, declarou em entrevista que o grupo extremista Hamas, que controla a Faixa de Gaza, está com suas ações atraindo um holocausto para a região.
Esta declaração repercutiu muito mal no mundo todo, afinal normalmente a palavra holocausto é usada em referência às praticas nazistas na Segunda Guerra Mundial, predominantemente contra Judeus. E todos sabem que se refere a um genocídio, não há outra explicação.
No Brasil, a Federação Israelita soltou uma nota condenando o uso da palavra holocausto pelo vice-primeiro ministro. Mas alguns pontos chamam a atenção:

- O Estado de Israel vem sendo atacado diariamente por dezenas de mísseis provenientes da faixa de Gaza;
Com certeza isso é verdade. Para mim, o número de mortos não importa, qualquer vida perdida é para ser lamentada. Mas normalmente para cada bomba que explode em Israel, uma enormidade de bombas explode na faixa de Gaza, fazendo muito mais estragos e vítimas.

- Enquanto o Hamas, grupo terrorista que controla a faixa de Gaza, não aceitar a existência do Estado de Israel, bem como praticar violência diária contra o território israelense, a região será palco de conflitos;
Talvez esses conflitos não existissem se a ONU, organização que não presta para nada, tivesse cumprido o prometido quando fixou os judeus nas terras habitadas por Palestinos, dividindo-a entre os dois grupos: reconhecer a existência dos dois Estados soberanos. Israel foi reconhecido como um país, a Palestina não. Mais tarde esses territórios foram anexados ao território Israelense. Me parece muito justo. Se os palestinos não reconhecem Israel, tampouco Israel reconhece a Palestina. Pode ser pouco para quem está de fora, mas para os palestinos acredito que serve de estímulo à guerra.

- Cenas como as mostradas pelas televisões em todo o mundo com crianças feridas fazem parte do marketing destes radicais para colocar a opinião pública contra o Estado de Israel. Crianças também são atingidas em território israelense sem o mesmo uso das imagens.
O uso ou não das imagens de crianças feridas e mortas é o que está em discussão aqui. Talvez devêssemos nos preocupar mais em tentar não matar crianças em ambos os lados.

Sei que estou metendo o bedelho onde não sou chamado. Apenas vejo que durante muito tempo Israel guerreou com a ajuda dos EUA, ampliou enormemente seu território e seu poderio bélico, possui bombas atômicas, distribuiu assentamentos em áreas consideradas palestinas e até hoje utiliza a maioria esmagadora dos recursos naturais dos dois territórios, especialmente a água.
Tudo isso pode facilmente ser entendido como provocação. Não que isso justifique alguém entrar em um mercado e se explodir para matar israelenses. No entanto, para os mais radicais, morrer dessa forma é uma honra e não um demérito. Não devemos olhar para esse conflito com nossos olhos preconceituosos de ocidentais.
Para terminar, a nota diz o seguinte:

- Esperamos que o mais breve possível a paz retorne ao Oriente Médio e que os grupos terroristas sejam substituídos por governos democráticos e, com clara intenção em favor da paz.
Eu também espero. Até porque nenhum dos lados até agora realmente desejou a paz. Um grupo não aceita a existência do outro, então a solução é o extermínio. Como Israel topou ser a ponta de lança norte-americana no Oriente Médio e adotou o modo de vida capitalista, todo o apoio lhe foi concedido, talvez como uma forma de influenciar as futuras gerações da região. Até agora pelo menos não tem funcionado dessa forma fora de Israel. Nesse conflito sem perspectivas de fim pelo menos alguém teve coragem de dizer o que realmente pensa. E sinceramente não acredito que ele esteja sozinho nesse pensamento.

Share:

Momentos históricos.

Não é à toa que deixei para escrever sobre esse tema muito depois do acontecido, ainda mais num dia 29/02, ano bissexto. Fato raro. Queria ver, ouvir opiniões e principalmente saber quem substituiria o ditador Fidel Castro no comando de Cuba, depois de sua renúncia, após quase 50 anos de poder. Queria também saber como seriam os primeiros dias desse novo governo.
Fidel Castro foi, junto com Che Guevara, um dos líderes da Revolução Cubana, que derrubou o então ditador Fulgêncio Batista. A vitória, conquistada em 1959, prenunciava uma mudança radical na política, na economia e principalmente nas relações internacionais. Afinal de contas, os guerrilheiros que chegaram ao poder discordavam da forma como Fulgêncio governava o país. Pela proximidade com os EUA, Cuba era um paraíso para os estadunidenses. Cassinos e prostíbulos eram a grande fonte de renda do país, tudo construído para esses estrangeiros.
As mudanças prometidas vieram. Implantação do sistema socialista, aproximação com a URSS e fim das relações internacionais com Washington foram apenas algumas delas.
Cuba tornou-se importante geopoliticamente, já que era o único país reconhecidamente socialista na América Latina. Moscou passou a comprar seu açúcar, pagando valores acima do mercado para compensar a perda de arrecadação com o turismo na ilha. Dessa forma, tornou-se um inconveniente para os EUA, que tentou um ataque com refugiados cubanos na Baía dos Porcos, em 1961, para derrubar o regime de Fidel.
Depois da tentativa fracassada dos EUA, Cubanos e Soviéticos concordaram em colocar na ilha mísseis capazes de defendê-la de novos ataques. Quando Nikita Krushev, primeiro ministro russo, enviou os mísseis ficou clara a sua intenção: responder à colocação de mísseis nucleares estadunidenses na Turquia, mirando em grandes cidades soviéticas. Durante treze dias, a vinda dos cerca de quarenta mísseis nucleares russos provocou pânico e histeria nos dois países. Nunca o mundo esteve tão perto de uma guerra nuclear. Depois de um acordo, os navios com as bombas nucleares voltaram para a URSS. E as bombas dos EUA saíram da Turquia.
O sistema socialista cubano investiu pesadamente o dinheiro russo em escolas e faculdades, na saúde e nos esportes. Pode-se dizer que enquanto a URSS existiu, Cuba conseguiu sobreviver e até prosperar. Mas com o fim da URSS, Cuba ficou abandonada e sua situação apenas piorou. O agravamento da situação econômica obrigou Fidel a aceitar os dólares que vinham dos refugiados nos EUA como forma de movimentar a economia. E investiu novamente em turismo.
No fim das contas, Fidel, como todo socialista, jamais teve a intenção de levar seu país ao comunismo. Se prolongou no poder além do que devia, usou a força para repelir seus opositores, julgou e fuzilou muitos deles. Fez muitas das coisas que criticava no governo de Fulgêncio Batista.
Mas também enfrentou longas décadas de embargo econômico, imposto pelos EUA. Nos últimos quinze anos, esse embargo fez com que a população cubana sofresse como poucas no mundo. O país está dividido entre a Cuba para cubanos e Cuba para estrangeiros. O acesso à produtos básicos, como sabonetes, papel higiênico ou pães é restrito, há cotas para tudo. Apenas para
cubanos, é claro.
Cuba elegeu o irmão de Fidel, Raúl, para o seu lugar. Para entrar para a história, ele terá de fazer algo diferente do que fez até hoje seu irmão. Senão passará e será esquecido, como o insignificante irmão de Fidel. A esperança de melhora reside na discórdia entre eles.
Os EUA já disseram que não retirarão o embargo enquanto Cuba não for um país democrático, então as dificuldades continuarão. Nas aulas, por um bom tempo ainda me referirei à Cuba como o maior museu a céu aberto da história da humanidade. Espero sinceramente que a situação mude um pouco e que as pessoas parem de ser penalizadas pelas ações dos dois ditadores que se sucederam no poder.
Espero que se faça uma transição gradual, lenta e eficiente. E que a economia não "evolua" a ponto de levar para a ilha, de uma vez, todos os problemas dos países subdesenvolvidos como o Brasil. Analfabetismo, caos na saúde pública e abandono do social definitivamente não são as melhores lições para se aprender com o capitalismo que circula hoje no mundo.

Share:

Falta pé no chão!

O governo brasileiro, na figura de seu presidente, parece estar insatisfeito com a delicada situação do emprego formal no Brasil. Sabe-se já há muito tempo que a maioria das pessoas que trabalham no Brasil estão no mercado informal, dados os altos custos com os empregados formais.
Para mudar essa situação, o presidente prometeu às centrais sindicais projeto de lei que ratifica a Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que dispõe sobre as demissões sem justa causa.
Na prática, a convenção dá ao trabalhador o direito de não ser demitido sem justa causa. O empregador deverá justificar a sua decisão de demitir o funcionário, que poderá recorrer à justiça do trabalho. Esta poderá ordenar readmissão e pagamento de indenização para ambos os lados em caso de aceitar ou não a justificativa.
As centrais sindicais comemoraram a possibilidade dessa legislação voltar a vigorar no Brasil. A primeira vez que isso ocorreu foi em 1992, tendo sido retirada da constituição brasileira em 1997, por Fernando Henrique Cardoso. Nunca funcionou corretamente.
E quais as consequências práticas para o país? Vejamos: com a impossibilidade de mandar os funcionários embora, as empresas não mais os contratarão, aumentando a informalidade; vão manter os que já tiverem apenas enquanto não conseguirem "provocar" uma demissão por justa ou injusta causa, aumentando o desemprego; a justiça do trabalho, já muito eficiente em manter processos decadais, vai ficar ainda mais sobrecarregada.
Para quem não acredita que a prática é diferente da teoria, basta lembrar do período militar, em que a legislação trabalhista da CLT, utilizada nas cidades, foi extendida aos trabalhadores rurais, em uma tentativa de protegê-los dos abusos. Resultado: como os custos com a mão de obra aumentariam consideravelmente, os empregadores acharam mais proveitoso investir em maquinário, modernizaram o campo e mandaram os seus funcionários embora. Êxodo rural, "inchaço" populacional urbano, desemprego, crimes, problemas ambientais, são apenas algumas das consequências de uma legislação feita para proteger os trabalhadores.
Mas para que serve a história, não é mesmo? Mais desemprego, mais informalidade, mais tempo para processos na justiça trabalhista, é o que o governo está querendo para os trabalhadores brasileiros. Parece até que alguém esqueceu de fazer a lição de casa. De novo.

Share:

Justiça e conto de fadas.

Venho falando em sala de aula e escrevendo aqui constantemente sobre uma questão crucial no Brasil: a impunidade. Sabemos que o nosso país não é nenhum primor no cumprimento das leis que cria, mas acredito que tudo deve ter limites.
A imagem que coloquei junto à essa postagem não é bonita. Mostra o carro de uma pessoa completamente embriagada e drogada, que perdeu o controle do carro, invadiu um posto de gasolina, arrancou uma bomba de combustíveis, bateu em outro carro e atropelou um frentista que trabalhava no local. Depois disso e ainda com o frentista embaixo do carro, ele tentou fugir, acelerando o carro. Só não conseguiu devido ao próprio estado lastimável em que se encontrava e porque algumas pessoas o impediram, tirando-o do carro.
O frentista, Carlos Pereira Silva, teve queimaduras e traumatismo craniano. Saiu do hospital no dia 27 de fevereiro, ainda muito debilitado. O seu advogado vai processar o motorista do carro, Caio Meneghetti Fleury Lombardi, o que vai ser uma das suas primeiras lições de direito. Pode até ser que ele aprenda algo com isso e use sua "experiência" na faculdade de direito.
Preso em flagrante, com frascos de lança-perfume no carro e bêbado, o que foi constatado por exames do IML local, o estudante foi autuado e liberado em seguida. Irá responder ao processo em liberdade. A polícia civil pediu a prisão do estudante, o que foi negado pelo justiça. No dia 28 de fevereiro, saiu o indiciamento por tentativa de homicídio com dolo eventual, tráfico de drogas e dano com periclitação de vida. Agora é só esperar.
Entendo que seja difícil cumprir uma legislação que está ultrapassada em alguns casos e que é omissa em outros. Indagado por repórteres, o delegado que atendeu a ocorrência disse em alto e bom tom: "A lei não permite que ele fique preso". É inacreditável que mesmo com flagrante, provas materiais e laudo médico provando embriaguês, o assassino esteja em casa, sem ter sequer passado uma noite na cadeia. Enquanto isso, o frentista que teve sua vida modificada para sempre pagará com dor e sofrimento pelo fato de ter ido trabalhar naquele dia.
Reformas nas leis são aguardadas há décadas e certamente não serão feitas. Nossos governantes sabem que mexer nas leis é perigoso. Torná-las mais justas e eficientes pode fazer com eles mesmos sejam afetados. E como isso não é aceitável, continuaremos a ver todos os dias casos como esse, em que o dragão recebe a mão da princesa em casamento enquanto o príncipe, destruído, volta para casa para juntar os cacos da armadura e, quem sabe, recomeçar a vida. Isso se tiver sorte.

Share:

Gigante adormecido (mas de olhos bem abertos)

"Em cerimônia realizada no dia 17 de Janeiro, o governador do Estado de São Paulo retomou as obras de extensão do corredor Diadema-Brooklin, que será interligado ao Corredor São Mateus - Jabaquara. A obra deve ser entregue em outubro. Durante a cerimômia, o governador deu a seguinte declaração: "Estamos hoje retomando uma obra muito importante, que é o Corredor ABD. Ele começa em São Mateus, na zona leste, passa por Santo André, São Bernardo do Campo, Diadema e vai para o Jabaquara. E falta uma perna do ‘Y’ para que esse corredor venha até a Berrini". Este Corredor interligará o Terminal Diadema (EMTU) à Estação Berrini, da Linha “C” da CPTM. A obra, que inclui 620 metros de galeria para águas pluviais e cerca de 11,8 quilômetros de extensão de pista está sendo construída pelo Metrô de São Paulo e terá um custo de R$ 72 milhões. Também estão incluídas na obra melhorias paisagísticas, renovação do sistema de iluminação pública no canteiro central, sinalização de tráfego e comunicação visual, implantação de estações de passageiros e recuperação de calçadas e guias. O concreto das calçadas será corrigido e as guias serão rebaixadas para facilitar o acesso aos portadores de deficiência.
Questionado sobre a retomada das obras em ano eleitoral, o governador negou que o trabalho tenha caráter eleitoreiro. Segundo o secretário de transportes, a demora para o início das obras se deu porque o estado tentava ratear os custos dos trabalhos com a prefeitura e como não houve acordo o estado vai bancar a obra sozinho."

Estranhou alguma coisa na notícia acima? Sim, caros leitores, há algo errado nessa história. Não há datas precisas nem nomes, o que é de se estranhar no jornalismo. A notícia acima foi montada por mim com excertos de notícias sobre o assunto recolhidas no site* do Metropolitano de São Paulo, responsável pelas obras.
As informações são bem coerentes, mas não são a realidade. Vejamos: na época dessas notícias, o governador do estado era Geraldo Alckmin, pré-candidato à presidência da República pelo PSDB-SP. O secretário de transportes também não é mais o mesmo. Nem mesmo o prefeito é o mesmo (era José Serra, que passou menos de dois anos no cargo, depois foi o candidato eleito ao governo do estado, no lugar de Alckmin).
Segundo o ex-governador, a obra não tinha caráter eleitoreiro. Ainda de acordo com o site do Metrô, em Março de 2006 a galeria pluvial já tinha sido terminada, enquanto em Maio 35% da obra já tinha sido concluída. Em Agosto, 60% da obra já estava pronta e a previsão mais pessimista era de entrega da obra pronta no início de 2007. No entanto, na semana passada tive a oportunidade de andar por grande trecho da avenida Cupecê até Diadema, passando pelo terminal. Percorri grande parte do corredor em obras e pude constatar o seguinte: a galeria realmente ficou pronta; as pistas estão prontas e são usadas pelos carros de passeio; não houve melhorias paisagísticas; a iluminação pública não funciona na avenida inteira; as placas e semáforos não estão completamente prontos; praticamente não houve melhoria na qualidade das calçadas apesar do rebaixamento para uso por deficientes ter sido feito. A obra está abandonada.
Por morar muito próximo à Avenida Cupecê, pude verificar o que o abandono fez por essa região. Como os retornos à esquerda foram retirado e outros retornos construídos, esperava-se uma melhoria no tráfego. Mas como não há fiscalização e os carros trafegam pela via que seria exclusiva dos ônibus, o trânsito virou uma barbárie, inclusive com casos de atropelamentos e mortes. Carros fazem conversões e retornos proibidos, motos usam a guia rebaixada para portadores de deficiência para trocar de via nas avenidas. E nenhum dos dois respeita os faróis.
Essa obra é só um exemplo daquilo que já venho falando há muito tempo: promessas não cumpridas na campanha eleitoral são "requentadas" para a campanha eleitoral seguinte. Faz-se um pouco da obra até as eleições, a obra é paralisada e retomada dali a dois anos, quando novo pleito eleitoral é realizado. Enquanto isso, o povo que seria beneficiado (e que pagou) pela obra espera ansioso o dia em que o gigante adormeça e deixe cair as migalhas que têm nas mãos. Uma obra como essa, que deveria ficar pronta em poucos anos, no Brasil ganha proporções homéricas: ficará pronta em algumas gerações. E esses caras ainda têm coragem de dizer que se preocupam com o povo e pedir meu voto. Pois enquanto o sistema político brasileiro tiver canalhice como pré-requisito para candidatos, continuarei votando nulo. E enquanto os partidos políticos não deixarem de lado seus planos mirabolantes para controlar e se locupletar do dinheiro público, não vejo porque votar em nenhum deles. O gigante na realidade é apenas um boneco, uma marionete. A grande briga é para ver quem será o manipulador do boneco. E quem escolhe esse manipulador? Você, caro eleitor!

* www.metro.sp.gov.br, consultado em 11/02/2008


Share:

A pedra e a vidraça!

Durante a abertura dos trabalhos do legislativo de seu estado, o governador do Mato Groso do Sul, André Puccinelli (PMDB), deu uma declaração forte e que, obviamente, foi duramente criticada pela Comissão de Direitos Humanos da OAB-MS. Segue: "Borduna* e repressão. Tolerância menos que zero foi dada! Fez gesto de reação, é ordem do governador: pode disparar a arma em direção ao que fez gesto de reação".
Não, o governador não ficou louco. Ele deu essa resposta aos repórteres quando perguntado sobre o princípio de rebelião ocorrida na colônia penal de Campo Grande no dia 05 de Fevereiro desse ano, onde os presos cumprem pena em regime semi-aberto. Dois policiais militares foram até a colônia para prender um dos internos, suspeito de assalto. Pelo que foi divulgado na imprensa, a viatura foi cercada e, depois da fuga dos policiais, incendiada. A informação de que eles teriam sido espancados, dada no Jornal Nacional de ontem, 07/02/08, não foi confirmada por nenhum outro veículo de informação.
Além do prejuízo material, fica também uma imgem ruim para a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (SEJUSP), pois foi encontrado no dia seguinte um pé de maconha no local. Em uma vistoria no começo do ano foram encontradas bebidas, drogas e garotas de programa. Isso sem contar que a colônia penal tem capacidade para 80 presos e abrigava atualmente cerca de 490, segundo a Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen).
É claro que o governador extravasou as emoções naquele momento. Mas não está completamente errado, afinal o policial é treinado para defender as pessoas, inclusive ele mesmo. Se pensarmos em cem detentos tentando agredir dois policiais, já é justificável o uso da arma de fogo como defesa. Mas como era de se esperar, uma rápida reação de repúdio foi dada pela Comissão de Direitos Humanos da OAB-MS, que afirmou que "todos devem ter seus direitos respeitados, inclusive quem está preso". Muito justo, afinal a lei é para todos, certo? Isso inclui os policiais envolvidos.
No site da OAB-MS, o presidente da Seccional Mato Grosso do Sul, Fábio Trad, declarou que o episódio de violência era um fato previsível. Só não entendi uma coisa: se os detentos são tão capazes de atos violentos que chegam a ser previsíveis, porque o regime semi-aberto? Com tantas informações contraditórias sobre o que houve com os policiais, procurei insistentemente no site da OAB-MS sobre notícias dos policiais envolvidos, mas não encontrei nada. Parece mesmo é que policiais não têm os tais direitos humanos.
Não estou dizendo que os presos não devem ter seus direitos respeitados. Mas gostaria realmente de ver a comissão de Direitos Humanos aparecer mais para defender os outros cidadãos, gente de bem, pais e mães de família, famílias inteiras, assaltados, violentados, desrespeitados de todas as formas por bandidos comuns, bandidos políticos e até bandidos advogados (afinal gente ruim tem em todas as profissões). Enquanto só aparecerem para defender direitos de bandidos, fica difícil acreditar e aceitar sua imagem de bem-feitora.
Criticar o sistema prisional agora e dizer que aquilo era previsível é muito cômodo. Mas fazer algo com o conhecimento jurídico, isso não foi feito. Critiquem o governador, eu entendo. Muito fácil ser a pedra. Difícil mesmo é ser a vidraça.

* Borduna: arma típica indígena, mais conhecida como clava.

Share:

O Brasil e as eleições Estadunidenses.

Interessante notar como funcionam as coisas. A corrida presidencial nos EUA começou quente, com Democratas (oposição) e Republicanos (situação) criticando duramente o atual presidente, o republicano George W. Bush. "Mas e o Brasil com isso?", me perguntariam. Obviamente, as eleições estadunidenses irão influenciar e muito as políticas internacionais, o que inclui o comércio internacional.
Entre os candidatos, depois da desistência do Senador Mitt Romney, é muito provável que o candidato à presidência pelo partido Republicano seja mesmo o Senador John McCain, grande vencedor da "super terça". Ele ainda não sabe se enfrentará o Senador Barak Obama ou a Senadora Hillary Clinton, pois a disputa pela indicação à candidatura pelo Partida Democrata continua bastante acirrada.
Analisando friamente a sociedade daquele país e como ela se comporta nas eleições (completamente diferentes do Brasil), é bastante provável que se tenha uma disputa ferrenha até as indicações dos partidos, e a partir daí, fim de jogo. Os Democratas concorrerão com "o novo", ou seja, ou um negro ou uma mulher. Ambos são qualificados para o cargo, mas enfrentarão um candidato branco, herói de guerra, muito respeitado, senador há mais tempo que o seu concorrente e, o mais importante, representante de grande parcela da população que se convenciona chamar de " WASP - white anglo-saxon people", ou pessoas brancas de origem anglo-saxônica - os colonizadores. Apesar de achar a novidade interessante, é bem provável que essa acirrada disputa interna para ser "a novidade" nas candidaturas à presidência dos EUA leve os Democratas a uma derrota histórica em uma corrida presidencial que em tese seria fácil de vencer. Bastava convencer Al Gore a se candidatar e se vender como oposição a um dos presidentes com menor aceitação popular em fim de mandato na história daquele país. John McCain e o Partido Republicano agradecem.
Então analisemos: que partido seria melhor para o comércio Brasil X EUA? Por suas ideologias políticas, o Partido Republicano é bem visto por diversos países, especialmente os subdesenvolvidos como o Brasil. Isso porque interfere menos no comércio exterior e dá mais abertura de seu mercado interno aos produtos importados. O Partido Democrata é mais protecionista, o que afetaria negativamente o comércio com aquele país.
Isso é uma constatação até óbvia, mas toma outra direção no Brasil. Por convicções ideológicas do século XIX, o partido governista brasileiro tem orientado a diminuição gradual do comércio internacional com os EUA, o que obviamente demonstra os sinais evidentes da insanidade que se abateu na equipe econômica que cuida do comércio exterior. Não gostar dos EUA por serem eles "o carro chefe do capitalismo" ou qualquer coisa desse tipo é um discurso que serve muito bem para os partidecos de oposição, que aliás vivem disso. Mas reduzir o comércio com a maior potência econômica do mundo e prejudicar a economia nacional, isso já é bem diferente. Típico desses fundamentalistas que dominam o cenário político nacional.
Share:

Glasnost não! Cortina de ferro.

Na imagem aí ao lado aparece o objeto de desejo de muitos brasileiros hoje em dia: o cartão corporativo!
Com esse cartão, que deve ser usado apenas para despesas emergenciais (leia-se sem concorrência pública), o portador pode fazer compras em free-shops, loja de material para construção, de instrumentos musicais e esportivos, veterinárias, óticas, choperias e joalherias. Poderá também almoçar em restaurantes caros, comprar vinhos finos, pagar hotéis nas férias, alugar carros e, por último mas não menos importante, sacar dinheiro no caixa, sem se preocupar em justificar os gastos. E o que é mais importante, a conta é encaminhada para o governo, que paga tudo. E se alguém da oposição, digo, de fora do governo quiser realmente discutir, o governo põe panos quentes, pedindo ao "cumpanhero" ou "cumpanhera" investigado que se retire do cargo, como no caso de Matilde Ribeiro, ex-ministra (???) da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da igualdade Racial - SEPPIR (nunca vou entender isso: defender a igualdade entre ratos, lebres, lobos, girafas e humanos, esse governo tem cada uma...). Ou então podemos ter aqueles casos clássicos de "me enganei de cartão", "eu não sabia como usar o cartão" ou "me informaram errado". Ou eles são muito inocentes ou sabem que o povo é burro e acreditará neles. Alguns até devolvem o dinheiro. "Tudo bem", dirão, "é um bom passo". Mas fico pensando no que disse o meu irmão sobre um hipotético roubo a banco, em que os assaltantes, surpreendidos na saída pela polícia, dizem: "OK, acabou a brincadeira, vamos entrar e devolver todo o dinheiro roubado, então não foi cometido crime nenhum, certo?" Será que a lei é assim mesmo ou sou eu que estou cansado dessa palhaçada?
Para fingir de bonzinho e escapar de uma investigação mais séria (ou seja, fora do senado e congresso) o governo agora propôs uma CPI para investigar o uso dos cartões corporativos, desde que se investigue também o período do governo FHC. Isso é para depois poder dizer "tá vendo, não foi só a gente que fez cagada com cartão corporativo". Como se um só fazendo já não bastasse!
Enquanto isso, para evitar que repórteres xeretas fiquem bisbilhotando no Portal da Transparência e expondo os gastos com o dinheiro público, alguns ministros inventaram que a divulgação dos gastos da presidência coloca este e seus familiares em risco. Retiram-se então os dados da internet, forma-se uma "cortina de ferro" que tira do brasileiro o direito de saber o que se faz com seu dinheiro. Assim o Portal da Transparência deve ser rebatizado como Portal Nem Tão Transparente Assim. Afinal de contas, qualquer brasileiro com acesso à internet e um pouco de neurônios ativos poderia ter em mãos números reais, provas do porque a saúde, o transporte, a previdência e a educação no Brasil são relegados ao enfadonho e cômodo esquecimento. Mais uma vez, o governo faz o fácil ao invés de fazer o certo: demite, mente e omite. Tudo para que o dinheiro público continue jorrando (se não for com cartões será de outra forma qualquer, esses caras são criativos!), enquanto os brasileiros continuam a dormir suave e deliciosamente nos lençóis da ignorância.

Imagem: folha online - www.folha.com.br

Share:

O país do futuro!

No dia 23 de janeiro, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, revelou dados coletados pelo DETER, sistema de detecção de desmatamento em tempo real na Amazônia Brasileira. Esse sistema registrou o corte estimado de 3235 km² de florestas amazônicas nos últimos cinco meses de 2007.
Não que isso seja alguma novidade, afinal de contas o desmatamento na Amazônia é estimulado pelo governo já há muito tempo. E o governo Lula não é diferente dos outros. A grande repercussão nesse caso foi mais por conta do mau estar causado no governo pelo bate-boca entre ministros do que pelo desmatamento em si.
A ministra Marina Silva (meio ambiente) e o ministro Reinhold Stephanes (agricultura) andaram trocando farpas para ver quem ficava com os "louros da vitória", ou seja, quem não levaria a culpa por mais essa.
Já há muitos anos venho falando em sala de aula que a grande discussão quando se trata de Amazônia não é ecológica, é econômica. A região norte do Brasil sempre foi utilizada como válvula de escape. No passado, quando foi necessário acabar com as Ligas Campesinas que lutavam por reforma agrária no nordeste, muitos trabalhadores foram realocados na Amazônia, mesmo sem conhecimento sobre a região, as doenças, produtos e formas de cultivo. Funcionou: as ligas foram desarticuladas. E na Amazônia? Morte e abandono para os agricultores. Hoje, o Brasil se vê como uma grande potência na comercialização de carnes e grãos, que são produzidos em grande quantidade no centro-norte do país. E a floresta é vista sim como um empecilho, uma pedra no sapato do desenvolvimento a qualquer custo, tão característico desse país.
Mais importante do que discutir sobre o assunto seria punir os culpados. Mas qual político brasileiro pode bater no peito e dizer "eu aplicarei a sentença" ou "eu punirei os culpados"? Nenhum. Quando o lobo é quem toma conta das ovelhas, outros lobos se aproveitam. Como são todos da família, todos se aproveitam, alguns mais, outros menos. E moral para punir os infratores ninguém que seja membro desse governo tem. Ou tem o rabo preso mesmo.
Enquanto ministros discutem, a floresta cai. Enquanto punições não são aplicadas, a floresta cai. Enquanto se discute se os dados da devastação são esses, maiores ou menores, a floresta cai. Devíamos logo deixar cair também a máscara, derrubar a floresta amazônica de uma vez e manter o desenvolvimento desenfreado, em que patrimônios ambientais desaparecem, governantes e empresários enriquecem, a população empobrece e o Brasil continua sendo o país do futuro. Um futuro sombrio e aterrador, mas ainda assim, um futuro.

Share:

Aposentadoria!

Muitas vezes fico admirado com as coisas que vejo ou ouço falar no Brasil. Uma dessas que me deixou estarrecido foi a notícia que o INSS vai pagar aposentadoria para invasores de terra no Brasil, alegando que não pode restringir o acesso ao benefício pelo fato de não existir titulação de terras ou irregularidades na ocupação da terra.
Obviamente ficou claro que as leis no Brasil podem não valer nada, desde que isso traga algum benefício nas próximas eleições. A propriedade de terras pode até ser questionada, mas é marca registrada do capitalismo no qual vivemos. Não sou contra pagar tal benefício para os trabalhadores rurais, desde que tenham a sua situação regularizada. Mas regularizar a situação significa fazer a Reforma Agrária, tanto falada na época em que o partido governamental dizia defender o povo. Não será feita, pois seria a solução de muitos problemas. E resolver problemas não é vantajoso para os políticos brasileiros, muito pelo contrário.
Com relação aos problemas da sociedade, este governo será marcado pelo assistencialismo barato, pela inovação na forma de fazer "cabresto político", pela corrupção e por fazer tudo do jeito mais fácil. É mais fácil dar cotas do que resolver o problema da educação, é mais fácil dar aposentadorias ilegais do que fazer a reforma agrária, é mais fácil sacrificar antigo "cumpanheiros" do que admitir a corrupção nas entranhas. Não dá mesmo é para esperar coisa diferente desse pessoal, que passará à história como aqueles que mais fizeram pelos seus. Membros do partido, esposas de membros do partido e "cumpadres", é claro. O nível está tão baixo que tenho vergonha até de comentar. Nada que não possa piorar.

Share:

Ações afirmativas. Ou negativas?

Em 18 de Janeiro desse ano, um juiz de Santa Catarina tomou uma decisão polêmica: suspendeu o programa de cotas para negros e oriundos de escolas públicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e orientou a instituição a conceder as vagas para os candidatos que atingissem a pontuação mínima de cada curso. Isso causou uma grande discussão pelo país, especialmente por parte de organizações que defendem tais cotas.
Mas é interessante notar as justificativas dadas pelo juiz Gustavo Dias de Barcellos, nas quais baseia a sua sentença: impossibilidade de definir precisamente uma etnia no Brasil; a inexistência de "raças humanas"; e a ocorrência de dano irreparável ou de difícil reparação aos estudantes que, mesmo tendo alcançado a nota não terão a sua vaga, destinada a um cotista. No que ele está errado? Talvez esse juiz tenha errado ao citar a constituição brasileira, que em seu Artigo 3º garante que no país "...não haverá preconceitos de origem, cor, idade e quaisquer formas de discriminação" ou o Artigo 7º, que diz que é proibida a diferença de salários, de exercícios de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil. É, usar a lei no Brasil para tentar fazer alguma coisa quase sempre não é algo bem visto.
A discussão durou até o dia 31 de Janeiro, data em que o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, derrubou a liminar do juiz catarinense. Com tal decisão, está mantido o sistema de cotas da UFSC e as discussões sobre ações afirmativas e como elas influenciam e melhoram a democracia brasileira.
Nas minha contestações fica sempre a mesma afirmação: Não estamos discutindo o problema! Todas as alegações de parte à parte restringem a discussão à sistemas e ações afirmativas. Organizações como o Educafro alegam que "devemos continuar buscando o melhor para pobres e negros". No entanto, todos continuam fingindo que o problema só existe quando os alunos chegam na Universidade, o que não é verdade. Enquanto a sociedade discute cotas para universitários, os ensinos fundamental e médio atingem níveis assombrosamente baixos. Os alunos estão cada vez menos capacitados, tendo vindo do ensino público ou não. E desses, alguns dos que passarem nos vestibulares por méritos próprios não terão direito de estudar, tendo perdido a vaga para um cotista. O quão essa medida é "afirmativa" para esses alunos? Sejamos práticos: o problema existe? Sim! Mas será mesmo que a única alternativa que existe para fazer alguém ter direitos é fazer outro alguém perder direitos?
A verdade é que lutar por educação de verdade, aquela que resolveria os problemas do Brasil, demora, é cansativo, a sociedade não está interessada e o governo muito menos. Porque? Por que esse seria um projeto que levaria pelo menos 20 anos, consumiria grandes quantias de dinheiro público sem trazer benefícios elitoreiros e exigiria uma mobilização que a sociedade brasileira não tem, não sei ainda se por incapacidade ou preguiça. No Brasil, parece haver um acordo velado entre a maioria da população e os políticos: "não tirem o carnaval do calendário que a gente não reclama do resto." Estudar é um porre mesmo! Mobilização então? Dá muito trabalho. O fácil é o certo! Melhor ficar quietinho, comendo ração e vendo desfiles das escolas de samba e futebol na TV. Até já acusaram o futebol de ser o "ópio do povo." Mas os tempos mudaram. O ópio já não é mais necessário.

Share:

O TSE e o ano eleitoral.

"Você que votou em quem venceu as eleições de 2006, presidente, senadores, governadores, deputados federal e estadual, está satisfeito? Está de olho neles? Você é o responsável pelo país que somos. O Brasil é tão bom quanto o voto que você colocou na urna. O candidato que você elegeu é você lá. Olho nele."

Assim começa mais um ano eleitoral, com a campanha Olho Nele, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). É bem verdade que as propagandas já circulavam no final do ano passado, mas agora se tornam mais significativas. Interessante notar o jogo de palavras utilizado, com frases cuidadosamente montadas para manipular as pessoas, passando uma visão irreal das coisas. Podem até dizer que sou louco, que é coisa da minha cabeça. Mas analisemos a frase: ela começa com "você que votou em quem venceu as eleições..." Será mesmo que só quem votou nos vencedores tem o direito a participar das discussões políticas com os eleitos? Ao que parece, para o TSE, a resposta é sim.

Intrigas a parte, o que o TSE afirma é que apenas quem votou nos eleitos pode cobrar alguma coisa desses políticos. Assim, aqueles que não votaram ficam isentos da responsabilidade, o que parece bastante tentador para grande parte do povo. O TSE continua perguntando se o eleitor está satisfeito, se está de olho nos candidatos. No entanto, a grande maioria da população não tem acesso a meios reais de cobrança em caso de insatisfação, uma vez que os políticos só descem dos seus pedestais quando há novas eleições e eles precisam novamente seduzir, chantagear e enganar o povo com suas promessas jamais cumpridas.

Mais para frente a campanha alega que "você é o responsável pelo país que somos", como se o eleitor pudesse se responsabilizar pelos atos de outra pessoa, no caso eleita para um cargo representativo. Muitas vezes nos enganamos com as pessoas, em várias situações, como no trabalho, no amor, na escola. Porque seria diferente com os políticos? Ter votado em alguém não faz de mim cúmplice se esse alguém se tornar um bandido.

"O Brasil é tão bom quanto o voto que você colocou na urna" joga a responsabilidade do estado lastimável em que vive a maioria da população nela mesma. Apesar de ter culpa, os mais pobres não têm culpa sozinhos. E "o candidato que você elegeu é você lá" também mostra para a população algo que digo em minhas aulas já há algum tempo: os políticos não são os representantes eleitos pelo povo, eles são os representantes do povo, são o que o povo é. E o TSE joga isso na cara de todos, com um "se o seu político rouba, ele é você lá". Logo, você faz parte do esquema.

Essa campanha infeliz do TSE tem como objetivo manipular as pessoas, ligando-as de alguma forma a seus candidatos eleitos e fazendo com que haja alguma identificação entre eleitor e eleito, na tentativa de barrar o aumento do número de pessoas que anulam seus votos, por descrédito na política. Mas é claro que só funciona se a quantidade de pessoas for pequena, então faz-se uma campanha dizendo que só a minoria dos eleitores pode cobrar dos políticos. Já imaginaram se os 127 milhões de eleitores desse país resolvessem tomar uma atitude e cobrar do governo federal, por exemplo, o que será feito com os R$ 537,161 bilhões* recolhidos em impostos e contribuições federais em 2007? Creio que não seria agradável para o governo.

Mas o ano está só começando, e será um ano rápido: carnaval, olimpíadas, campanhas eleitorais, Natal. Espero ter mais coisas a comemorar no final desse ano do que tive no que acabou há pouco.

*Total contabilizado até o mês de Novembro.

Share:

Começou bem...

Caros leitores, terminei o ano sem perspectivas, o que denuncia minha postagem anterior. Em outras oportunidades eu já disse que a classe política brasileira tinha perdido o respeito, mas dessa vez o negócio foi longe demais. Revoltadinhos que estavam pela derrubada da CPMF no senado federal, o presidente e seus comparsas resolveram se vingar de tudo e de todos. Para compensar a "perda" na arrecadação, resolveram dobrar o valor do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e somar a ele uma taxa de 0,38% (será coincidência?). Não contentes, aumentaram também a Contribuição Sobre Lucros Líquidos (CSLL), de 9% para 15%, o que atinge em cheio os bancos. O IOF já começou a ser cobrado e a CSLL começará a ser cobrada quando acabar a noventena (obrigatória para mudanças desse tipo no mercado financeiro). Somadas, essas alterações somam aproximadamente R$ 20 milhões. Os outros R$ 20 milhões seriam compensados nos cortes de gastos públicos.
Agora todas as operações financeiras estarão sujeitas a uma carga de impostos muito maior e todas as tarifas bancárias irão aumentar. Ou seja, o povo vai continuar pagando a CPMF, agora com outro nome, mas com uma diferença: vai pagar muito mais caro por ela. Ou o governo acha que bancos e financeiras não vão repassar esses aumentos para o consumidor? Se eles acreditarem mesmo nisso...bom, não vou nem discutir, eles sabem que os aumentos serão repassados e estão pouco se importando com isso.
Sem contar ainda que a perda da CPMF vai virar desculpa para que qualquer projeto seja parado, por falta de verbas. Como se o sistema de saúde recebesse investimentos! E dizer "certamente, as pessoas que votaram contra [a CPMF] não usam o SUS. Se usassem o SUS, eles não votariam contra" apenas demonstra a falta de conhecimento do presidente. O SUS nunca funcionou, com ou sem imposto. Não faz diferença!
O belo discurso presidencial em que ele afirmou que não haveria aumento de impostos, elogiado até por adversários políticos, foi por terra quando o ministro Guido Mantega anunciou o pacote econômico e, ironicamente, disse que os acordos que se referiam a não aumentar impostos eram relativos ao ano de 2007. Alguém deve ter dito que a piada era boa, que ele era engraçado e o pobre coitado acreditou. Mas os palhaços de verdade não estão rindo, porque vão ter de pagar a conta. De novo.
Aumentar impostos eles sabem, mas fazer uma reforma tributária está fora dos planos, certo? Infelizmente, as consequências desses atos não serão boas para a economia. Ao cobrar mais impostos, a quantidade de financiamentos deve cair, desacelerando a economia e a indústria. Ruim para o povo, ruim para o governo, bom para a oposição (ano eleitoral, lembram?). E para quem acreditar que o podre partido governamental e seus cúmplices irão mesmo reduzir gastos públicos, eu tenho um ótimo terreno na LUA para vender. E o corretor é o Papai Noel.


Share:

Fim de mais um ano.

Nesse espaço, durante todo o ano, publiquei vários textos de minha autoria discutindo diversos aspectos da sociedade, do Brasil e do mundo. Como dizem meus alunos, "piadas ácidas". Foi o início dessa pequena empreitada, no mês de março, que emprestou corpo às minhas idéias.
Concordo que muitas vezes minha opinião foge do normal da sociedade no geral, o que muito me alegra, tendo em vista a forma como a sociedade brasileira se apresenta na atualidade. Várias vezes deixei clara a minha indignação com o desrespeito e o descaso como atuam os diversos atores da sociedade, de políticos à cidadãos comuns. Mas é nessa época de festas que muitas das desigualdades, tão comuns ao país, vêm à tona. Enquanto pessoas comemoram o fim do ano, muitos não têm o que comemorar. Durante todo o ano passaram fome ou necessidades e agora o apelo visual das festas vêm trazer ainda mais tristeza para pessoas que não podem participar das festividades de "amor, paz e união", simplesmente por não poderem comprar o Natal que se vende atualmente.
"Esse é um momento de felicidade, deixemos a política de lado", dirão alguns. Infelizmente não posso deixar de pensar que por obra de alguns poucos, muitos cidadãos não terão o que comer, o que beber, o que festejar. O Brasil se encaminha para a sua "Idade Média", como diz meu irmão, em que o conhecimento ficará confinado a algumas instituições e pessoas e o fundamentalismo religioso tende a aumentar significativamente. Tudo isso acarreta no atraso do país, na falta de crescimento e aumento da corrupção. Não acredito que essa situação seja digna de uma comemoração. "Mas muitas coisas boas aconteceram", dirão outros. É claro, não posso aqui falar das individualidades, que podem ter sido excelentes. Mas é com o coletivo que me preocupo nessa mensagem.
Se olharmos de verdade para o Brasil veremos um país paralisado, com partidos políticos opositores que não têm um plano para o país, mas um plano de poder. Esses planos incluem estar no poder para retirar o máximo possível de dinheiro do orçamento para os partidos. Para isso existem os cargos comissionados, pessoas contratadas sem concurso, ligados aos partidos e que pagam parte do salário como contribuição partidária. Solução simples de financiamento. E os projetos? Quase nunca são iniciados, e se o são, nunca são concluídos. Afinal, devem servir como instrumento de barganha política com os eleitores. Serão sempre promessas porque promessas são equivalentes a votos, votos equivalem a cargos públicos, cargos públicos a dinheiro. Portanto nós eleitores pagamos para sermos enganados até apróxima eleição, em que as mesmas promessas e acusações serão feitas enquanto eles fingem que o processo é democrático e transparente. E o povo cai como um patinho.
Como vocês já devem ter reparado, essa é uma postagem de desilusão (parafraseando um músico da banda Plebe Rude sobre seu último CD). O Brasil não apresentou nada que me faça comemorar o final desse ano e não mostra perpectivas de melhora para o ano que vem. Por esse motivo me sinto no direito de dizer que acabo mais um ano com vergonha desse país. Não vou fazer uma retrospectiva, não creio que seja necessário. Além do mais, doeria bastante lembrar dos Renans, Lulas e Serras. A única coisa que posso fazer é desejar que os leitores tenham um ano melhor. Como já diria o Chico "Apesar de você (governo), amanhã há de ser outro dia". Espero realmente que isso seja verdade, é o máximo que posso desejar nesse momento da história do Brasil. Termino a ano citando um pensador russo, que explica bem o que acontece com esse atual governo na perspectiva política, e que explica minha desilusão e falta de perspectiva:

"Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana"
Mikhail Bakunin, anarquista russo do século XIX.

Boas festas à todos.

Share:

O fim da CPMF e a infantilidade política brasileira.

Nos últimos meses acompanhamos pela mídia grandes discussões sobre a prorrogação ou não da malfadada Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeira, a CPMF. Não há dúvidas de que a CPMF era um imposto diferenciado, uma vez que se cobrava uma porcentagem das movimentações realizadas em bancos ao invés de uma taxa fixa. Nenhum outro imposto cobrado no Brasil (e são muitos!) tinha essa característica.

Mas o que se assistiu não foi exatamente uma disputa ideológica, com a oposição e o governo discutindo a melhor forma de fazer o bem da coletividade brasileira. A discussão ficou como um pano de fundo, enquanto o governo oferecia cargos e liberações de verbas para que aliados e oposicionistas votassem a favor da prorrogação. Já a oposição se fechou em uma concha, se negando a discutir se o fim da CPMF seria um bem para o país e agiu como de praxe, em nome da derrota do governo, não importando as conseqüências desse ato. Tanto assim que governadores tucanos como Aécio Neves (PSDB-MG) e José Serra (PSDB-SP), possíveis candidatos à Presidência da República repudiaram os atos da bancada do próprio partido no Senado Federal, de olho nos R$40 bilhões a menos no orçamento.

Durante as discussões algumas coisas ficaram claras: senadores governistas, principalmente de partidos menores iam à mídia se dizerem “desprestigiados”, o que claramente indicava que queriam mais alguma coisa para votar a favor do governo. Enquanto isso os senadores oposicionistas se articulavam para “dar uma lição” no governo do PT. Não é necessário dizer que as discussões foram políticas e pouco importava se a população seria beneficiada ou não, apenas que lado da infantil divisão política brasileira seria beneficiado.

A CPMF foi derrubada por um número mínimo de votos a menos do que o necessário (apenas quatro), decretando o fim de sua cobrança oficial. Isso não significa que as cobranças embutidas nos produtos e serviços (quem você achava que pagava por essa CPMF?) serão retiradas, o que significa mais lucro para produtores e comerciantes. E o infantil presidente ainda diz que era um imposto justo, apenas porque era cobrada uma pequena porcentagem da movimentação financeira. Esquece-se ele que era um imposto acumulativo, cobrado em cascata e que os mais pobres não tinham como se defender disso, ao contrário dos ricos, que tinham várias possibilidades de isenções, como as dadas às movimentações financeiras realizadas na Bovespa. Isso é só para dar um exemplo.

Toda essa discussão foi realizada com propósitos pessoais. Deputados e senadores governistas se venderam o mais caro que puderam cobrar pela aprovação, enquanto seus colegas da oposição (os que não caíram em tentação, é claro!) mostraram força e união, desde que fosse para o benefício próprio, de alguma forma. Na negociação, todos absolveriam o ex-presidente do Senado, desde que ele renunciasse. Foi feito. Os que negociaram o seu voto receberão seus benefícios, pagos (óbvio!) com o dinheiro do povo. E enquanto o governo chora a perda da arrecadação da CPMF, comemora os recordes de arrecadação em outros impostos. A oposição comemora a sua vitória e a derrota do governo, enquanto o PMDB elege o novo presidente da casa. Nada foi perdido de verdade, apenas a vergonha dos políticos.

E a saúde para a população? Continua exatamente como antes da CPMF, dos governos “democráticos”, da ditadura, de JK, de Getúlio, de Dom Pedro I: a mesma porcaria de sempre!

Share:

Discurso de Paraninfo - 3º Acadêmico.

Sei que foram palavras simples até e nem se comparam ao discurso da Profª Lenilde. Mas gostaria de compartilhar com todos os leitores, pois as palavras proferidas foram para aquela turma do 3º colegial acadêmico mas também fruto das minhas indagações e intenções para com todo o processo educacional, da forma como eu o entendo.

"Primeiramente eu gostaria de agradecer aos mantenedores e à Coordenação Pedagógica do Colégio João Paulo I pela oportunidade de fazer parte dessa família e sendo assim, pela possibilidade de estar aqui hoje.

Gostaria também de agradecer aos alunos do 3º Acadêmico pela honra do convite de estar aqui nessa noite. Saibam vocês que o prazer e o privilégio são meus. Comecei a lecionar nesse colégio apenas nesse ano e por esse motivo jamais esperei ser escolhido paraninfo. Outros professores já estão por lá há muito mais tempo e são muito queridos pelas turmas.

Devo muito do que aprendi no colégio João Paulo I aos profissionais de todas as áreas que lá encontrei. Também devo muito aos alunos, afinal lecionar, na minha visão, nada mais é do que proporcionar uma grande troca de experiências. Mas já que uma tríade de professores da área de humanidades foi escolhida para estar aqui hoje e representar as turmas, creio que grandes discursos são esperados. Não pretendo fazer um grande discurso, apenas deixar uma lição que aprendi nesse ano.

Nas faculdades que fazemos, aprendemos as matérias referentes aos cursos que escolhemos e alguns optam, no final, pela responsabilidade de ensinar aos que estão se iniciando na vida acadêmica e auxiliá-los nesse longo e prazeroso caminho que é o aprender. Como em muitas outras coisas na vida, o idealismo faz parte do aprendizado e muitos saem da faculdade querendo “mudar o mundo”. Mas o que seria “mudar o mundo”? Não ensinam isso na faculdade! É uma utopia, diriam alguns, com certeza um sonho, diriam outros.

Pois foi nesse ano, lecionando nesse colégio, que aprendi o que significa “mudar o mundo”. Apenas porque conheci certa professora de Português e Literatura e em uma das inúmeras conversas que tivemos durante o ano ela me disse (não exatamente com essas palavras): “O mundo do professor são os seus alunos. Cada um deles. Se você conseguir mudar um de seus alunos, você terá mudado o mundo”.

Relembrei-me então do início da minha carreira como professor e de como eu me propunha a mudar o mundo. Sempre achei que os professores deviam permitir que seus alunos sonhassem, alçassem grandes vôos, crescessem cada vez mais. Eles deveriam ser maiores que os seus mestres, pois assim a humanidade poderia continuar caminhando para a evolução das teorias, do pensamento e das ações. Crescer como sociedade, com mais justiça e igualdade. Evoluir.

Senti-me estimulado e propus-me então à dura tarefa de mudar o mundo. Durante esse ano, trabalhamos, viajamos, brincamos, sorrimos e choramos. E nessa que é a última aula do ano, acho que posso dizer que aprendemos muito uns com os outros. Acho também que conseguimos proporcionar a vocês o instrumental necessário para que vocês não lutem contra moinhos de vento ao encarar o mundo.

Parte do meu mundo está se formando aqui hoje. Espero que, ao saírem por aquela porta essa noite, vocês não estejam em um mundo diferente. Que vocês “sejam” um mundo diferente. Teremos então cumprido o nosso papel de mudar o mundo. Mais um ciclo terá terminado na vida de vocês, mas o fim traz consigo um recomeço. Não teremos mais aquela relação de professores e alunos. Seremos vizinhos, amigos, quem sabe até colegas de profissão. Se a vida impuser caminhos difíceis e tortuosos daqui para frente, vocês podem contar conosco.

Por isso, mesmo estando no papel de professor de vocês há tão pouco tempo, me sinto no direito de pedir algo a vocês que é simples, apesar de não parecer: mudem o mundo. Mudem quantos mundos forem necessários para se tornarem melhores como pessoas e como profissionais. E se vocês se tornarem melhores que seus professores, nós entenderemos. E nos sentiremos orgulhosos por ter participado desse processo.

Nesse novo caminho que se inicia vocês conhecerão novos mundos. O horizonte se abrirá e novas possibilidades surgirão. Abracem a vida e trabalhem com amor, com ética, com respeito, com dignidade. Lutem pelos seus ideais, sempre vale a pena. Einstein já dizia: “Os ideais que iluminaram meu caminho, e que inúmeras vezes me deram novo alento para enfrentar com ânimo a vida têm sido a generosidade, a beleza e a verdade.” E esse é o meu desejo: que a felicidade, a generosidade, a beleza e a verdade estejam presentes na vida de vocês sempre.

Felicidades a todos e muito obrigado."

Share:

Pense!

"Quem não raciocina é fanático, quem não sabe raciocinar é um imbecil e quem não ousa raciocinar é um escravo"
W. Brumon

Sobre o autor!

Minha foto
Sou apenas um brasileiro, professor de Geografia, crítico da Política e das "politicalhas" que vejo todos os dias por aí. Sou um cara simpático com meus alunos e amigos, totalmente antipático com e que não acredita mais em política, que gosta muito de dar aula, principalmente pela liberdade de expressar minhas opiniões e discutí-las com os alunos. Gosto de viajar, gosto do bom e velho Rock'n'Roll. Gosto muito de Geografia e de estudar os "matos" desse país. Acho mesmo que nasci no país errado: prefiro campo a praia, vinho a cerveja, frio a calor, morenas a loiras, honestidade ao famoso "jeitinho brasileiro". Enfim isso tudo. Quem quiser saber mais pergunte para meus amigos e alunos.

Sobre o Blog!

Olá a todos.


Estamos caminhando por um mundo globalizado que não enxerga diferenças mais do que econômicas, por isso esse é um dos focos dos atuais estudos geográficos. Como amante, seguidor e professor dessa velha matéria, me sinto na responsabilidade de passar as idéias e atualidades desse contexto para os meus alunos e amigos, como quaisquer outros seguidores que vierem.

A visão é de uma pessoa que passou por diversas dificuldades e ainda passa, vivendo na periferia e tentando, a partir dela, criar certa resistência ao processo de desmonte da educação como um todo que acontece hoje no nosso país. Portanto, continuem se sentindo em casa, e não se esqueçam de comentar e dar suas opiniões sobre cada postagem. Como sempre, respondo aos comentários o mais breve possível.



Visualizações!

Seguidores!

Marcadores!

"Cansei" "relaxa e goza" 11 de setembro ações afirmativas adulteração água álcool.cana de açucar. Alemanha alunos Amazônia América Latina analfabetismo funcional analfabeto ano novo; feriado; simpatia; carnaval ANS aposentadoria invasores ilegais Aquecimento global arrastão assassinato atropelamento aumento aviaçao bacamarteiros Baco Bahia balança comercial Belém bobagens Bolívia bolsa família bombas atômicas Brasil Brasília Brecht buracos burrice. Battisti campanha eleitoral capitalismo carnaval cartel Cartões corporativos cassação Chile China chuvas ciclone ciclos ciência geográfica cinema clima Cocanha Código de trânsito código florestal Colômbia Comemoração comércio exterior Conflito consequências Constituição Brasileira conto de fadas controle de tráfego aéreo Copa do Mundo COPOM Coréia do Norte corredor Diadema-Brooklin corrupção costumes cotas CPMF crescimento crime crimes crise CSLL CSS Cuba cultura Cunha LIma Custos CVRD Declaração Universal dos Direitos Humanos degradação demissões democracia democratas dengue deputado Desastre aéreo descaso descaso com o dinheiro público desemprego desigualdades desmatamento desvios de verbas devastação Dilma ditador ditadura Documentário Eça de Queiroz economia Educação eleições Eloá embargo Embraer emprego EMTU enchente enem energia Equador erupção escândalos escolas esmola espaço esporte estradas estudantes etanol EUA eventos extremos extradição FARC farpas faxina férias festas festas juninas Feudo Fidel Castro Fim de ano finanças fraternidade funk Furacão Katrina futebol futuro fuvest gás geografia Geórgia gigante globo golpe de estado governo grampos grau de investimento greve greve na usp guerra Guerra Fria história Holocausto Hugo Chávez humanidade humor ideologias ignorante igualdade igualdade racial Ilha das Flores imbecil impostos imprensa inclusão social Inclusp incompetência independência indústria infantilidade infra-estrutura inocentes INPE INSS Internet invasão investigações IOF IPCC Irã islândia Israel Ítalo Calvino Jabor jornalismo José Dirceu julgamento Justiça ladrão Lei seca Lei trabalhista leis Leite liberdade lixo Lua Lula luto ma Maio de 68 manipulação marcas marionetes Marketing Marta Suplicy Mato Grosso do Sul meio ambiente mercados Mianmar micareta ministérios morte movimento estudantil MST muçulmanos mudanças Muro de Berlim música Natal natureza números OAB Obama ocupação da reitoria OIT olhar Olimpíadas ONU Operação Furacão operação tapa buracos oportunistas Oriente Médio Osama Bin Laden país Palestina Pan-americano Panamá panis et circensis Papai Noel Paraguai partidos Pátria Paulo Autran pesquisa petróleo planeta Plano Real planos de saúde plástico pmdb PMs poema polícia federal polícia militar polític política políticos poluição preconceito Presidência pressa produtos orgânicos promessas não cumpridas protestos PSDB PT ratos RCTV recapeamento record Reestatização reféns reflexões Renan renúncia republicanos resistência respeito retrospectiva revolução Ribeirão Preto Rio de Janeiro roubo Rússia salário mínimo Samba do Crioulo Doido Santa Catarina Santo André São Paulo Satiagraha saúde secas segurança Selic senado federal seppir sequestro Simón Bolívar sindicatos sistema de saúde sistema educacional socialismo sociedade sociedade civil soda cáustica sorte Stanislaw STF TAM Taxa de Juros terremoto terrorismo Tibete tortura tragédia trânsito Transparência Brasil travestis Tropa de Elite TSE Turismo UFSC Usina Hidrelétrica de Belo Monte USP Vale vandalismo Venezuela verdades vergonha vermes vestibular vida vulcão Wolrd Trade Center

Translate

Recent Comments

Blogger templates

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.